domingo, 30 de agosto de 2009

Dois dias comigo mesmo...



O final de semana foi calmo e de arrumações aqui em casa. Alguns objetos ganharam uma nova colocação e a voz da Nina Simone deu o tom no ambiente e na deliciosa pasta preparada especialmente por (e para) mim. Juntem-se a isso um bom um vinho e um telefonema inesperado e o resultado é a tranqüilidade e paz há algum tempo almejada.
Passei na locadora e procurei por dois filmes que me fizessem dar uma pensada em algo além da minha própria vida: Katyn e Foi Apenas um Sonho foram os escolhidos. O segundo eu ainda não vi, já o primeiro trouxe à tona mais uma vez a estupidez humana e me fez retomar minha descrença nesse mundo paradoxalmente belo e cruel. Engraçado que coincidiu com o pensamento do Ney Matogrosso publicado hoje na Folha de São Paulo: “Eu não sou uma pessoa satisfeita com o mundo a que assisto. Acho esse mundo em que a gente vive ignóbil. Credo! Dá vergonha de ser humano. E seres humanos que se acham o ápice da criação? Puta que os pariu! Vamos ver apenas um jornal da noite para ver do que o ápice da criação é capaz.”
As palavras do cantor podiam ter sido ditas por mim após ter assistido ao filme Katyn (idem, Polônia, 2007). A película dirigida pelo sempre importante Andrzej Wajda é de uma violência atroz. O episódio, que dá título ao filme, foi a execução de milhares de prisioneiros de guerra e que durante muito tempo foi vinculado aos alemães nazistas. Mais tarde, através de documentos recuperados, foi comprovado que o regime político da antiga União Soviética era o grande responsável pelo massacre.
O filme vai justamente reconstruir trajetórias de alguns envolvidos numa espécie de paralelo com as tragédias gregas. É evidente e ao mesmo tempo emocionante a aproximação feita com a lendária Tróia destruída pelos gregos. As mulheres polonesas se amalgamam de modo doloroso a Hécuba, Andrômaca, Cassandra... Magistral como a sutileza de Wajda nos mostra que os crimes de guerra não nos ensinam nada, pelo contrário, parecem apenas reforçar a irracionalidade humana. Além de As Troianas, Katyn flerta ainda com o mito de Antigona. Aqui a aproximação é bem mais explicita – tanto na história das irmãs que encaram de modos distintos a morte do irmão, quanto na cena em que o público se depara com um cartaz de uma montagem da tragédia sofocliniana.
O desfecho já conhecido por todos é revelado sem sutilezas, sem abreviações. Andrzej Wajda não realizou apenas um filme sobre um episódio histórico. Ele nos força a sermos cúmplices não só daqueles assassinatos, mas também dos massacres diários vividos por qualquer povo ignorado por seus governantes e sistematicamente dizimado por uma política de exclusão. Ou alguém acha que ignorar solenemente a miséria, a desigualdade e a impunidade não nos faz também tão absurdamente violentos e cruéis?



link oficial do filme:

sábado, 29 de agosto de 2009

A ponto de partir,
já sei que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso, e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.

Ana Cristina Cesar

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

SAINDO INTEIRO E CONTINUANDO A ENFRENTAR OS DESAFIOS NOSSOS DE CADA DIA!

Parafraseando o poeta: "a vida não para"! Pois é, e se ela não para por que eu iria me dar esse desprazer de parar? Reencontrei uma velha amiga que sem saber me colocou mais em contato com uma nova amiga. A velha amiga é uma pessoa doce, inteligente e cheia de talentos. A nova amiga é praticamente uma alma gêmea. Já choramos juntos, rimos juntos, bebemos juntos. Viajamos juntos.
Na última quarta a velha amiga me deu um livro de presente. Livro que ela publicou há pouco tempo e que é de uma delicadeza inenarrável. A cada passagem, a cada pensamento, meus olhos iam enchendo de lágrimas e meu coração pensava: "como é bom ser poeta!"
Guardem bem esse nome: Tathiana Treuffar! Esse é o nome da velha amiga que vem buscando seu espaço e que meus alunos brevemente irão descobrir. Porque como educador sei que precisamos conhecer tanto os chamados cânones quanto o novo pessoal que está dando a cara a tapa.
Publico aqui um dos poemas que levaram-me diretamente a minha própria alma e a minha nova amiga; um poema que nos faz lembar que o outro é importante, sim. Mas o "eu" está e estará sempre à frente, afinal de contas, sem o "eu" como poderemos ser "nós"?
Ah, o nome da nova amiga? Bom, ela sabe que estou dialogando com ela! Te amo!


Hoje quero cuidar de mim


Hoje quero cuidar de mim

Arrumar meus cabelos

Minha imagem no espelho

Passar batom nas minhas fantasias

Lavar minha alma com banho de cheiro

Hoje quero fazer uma faxina interna

Jogar fora o que estanca meu sangue

Podar as colméias do meu jardim

Nutrir meus girassóis com beija-flores

Hoje vou botar roupa nova

Desfazer aquela mala guardada

Abrir presentes antigos sem lamentos

Hoje me quero tão linda

Quanto me sonho

E na festa que me produzo

Só será permitida a reza

Boa de uma intensa fé em mim

Hoje quero esse estado sempre

Hoje sendo hoje, e amanhã também

Hoje deixo o ontem como parte

Do que sou:

Presente puro que já me pertence

Hoje quero a centelha que me movimenta

A acordar todos os dias com sede de sóis e luas

Hoje eu me darei este presente

Presente este que me quero sempre.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

sonhos...

nada está sendo fácil nesse período que insiste em ser tumultuado. tudo parece desembocar em algo mais confuso e menos equilibrado. a vida insiste em seguir e eu tento acompanhá-la. não quero perder o trem; não desejo ficar para trás. um dia me trocaram e fui buscar sozinho aquilo que não me deixaram buscar acompanhado. horas, dias, semanas, meses, anos... um segundo. menino... sozinho... corajoso... medroso... vivo... sempre. um dia não me disseram como seria. um dia esqueceram de me ajudar no entendimento da palavra separação. sou obstinado (ou quero ser). em alguma curva me prometi que a vida devia ser do jeito que é: estranha, linda, triste, bela, só... minha.
tentando a gente vai seguindo.
seguindo a gente vai buscando
buscando a gente vai sonhando
sonhando a gente sorrindo
sorrindo a gente vai chorando
até porque, como bem profetizou Guimarães: "qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura". Mesmo que seja só o seu próprio amor... Ainda bem que você tem o seu próprio amor.

terça-feira, 26 de maio de 2009

cenas de um casamento... cenas de uma vida...

Acabei de assistir a um debate furioso sobre as relações humanas intitulado: “Cenas de um casamento”. Filme-documentário ou documentário-filme? Sei lá, aliás, não tem importância nenhuma rotular intenso diálogo sobre as venturas e desventuras de se viver junto a alguém.

Várias coisas me impressionaram ao longo dos 299 minutos de filme: a força das interpretações, a magnitude dos diálogos, a agressividade necessária dos close-ups etc. Mas o que me impressionou mesmo foi saber que o este filme foi produzido e exibido na TV sueca no início dos anos 70! Como assim? A televisão sueca há mais de trinta anos exibia algo tão sofisticado em termos de discussão sobre o ser humano e aqui no Brasil insistimos na produção de bobagens como as telenovelas? Ok, comparações deste tipo não são válidas, eu sei, são culturas diferentes, propostas diferentes etc etc.

Bom, detalhes a parte, vamos dar uma olhada nas cenas daquele casamento de 1973. Dividido em seis partes, o filme começa com uma significativa entrevista do casal a uma revista feminina. Já aí percebemos todas aquelas fragilidades típicas de uma aparente perfeição. Mais tarde, no jantar, um casal de amigos resolve lavar a roupa suja e o “casal perfeito” apenas assiste perplexo aquilo que pouco tempo depois ele mesmo irá protagonizar. Foi dada a largada: Marianne e Johan iniciarão uma viagem sem volta às profundezas de seus recalques, angústias e inseguranças.

São muitos os momentos fortes do filme, mas o episódio Analfabetos é, em minha opinião, aquele que mais deixa a mostra a total inconstância e irracionalidade vivida por pessoas ditas saudáveis e inteligentes. Em um ápice Johan chega a dizer para Marianne: “Meu Deus, como eu te odeio. Eu pensava isso com frequência. Principalmente quando fazíamos amor e eu sentia a sua indiferença. E quando eu via você, nua no bidê, limpando aquela porcaria que eu depositava em você. Eu pensava: odeio o corpo dela, o jeito que ela se mexe. Eu devia ter te espancado. Mas nós escapávamos, falávamos sobre como nos dávamos bem.” E, em outro momento, ela também acaba confessando: “Quantas vezes devo repetir que o que sinto por você é pena? Sabe o que eu acho? Você é muito ingênuo. Você acha que eu cheguei até aqui, comecei uma vida nova, pela qual agradeço todos os dias, para jogá-la fora e salvar você da sua miséria? Se eu não te achasse tão deplorável, riria na sua cara. Se você soubesse quantas vezes sonhei que matava você, esfaqueava você, matava você de pancada.”

É tão doloroso acompanhar essa degradação dos personagens como é doloroso perceber que quase sempre somos covardes e nos recusamos a enfrentar nossos próprios demônios. O que vejo é uma discussão que não está nem um pouco ultrapassada, aliás, os casais hoje em dia parecem viver numa espécie de retrocesso, isto é, vamos de novo apenas ficando na superfície, fingindo que nos damos bem. São poucas as pessoas que têm a coragem de falar e agir, são muito poucas as pessoas que se permitem buscar algum tipo de originalidade e realização fora dos pseudo-manuais de “boa convivência”. As cenas daquele casamento de 1973 nos mostram o quanto a maioria prefere viver de aparência, se equilibrando em frágeis linhas que mais cedo ou mais tarde não aguentarão o peso de tanta hipocrisia. O final do filme é aparentemente tranqüilo, ligeiramente melancólico e, por que não dizer, ridiculamente patético?

Porém, aquele casal se enfrentou; enfrentou a velha e desgastada máxima que diz que nada é seguro e tudo desmorona o tempo todo. Marianne e Johan sabem que mesmo se reinventando sempre, não há garantias, não há certeza de nada. Quem sabe a única coisa a se fazer é ficarmos no meio da noite numa casa escura em algum lugar do mundo, como bem explicita o título do último episódio?

Título Original: Scener Ur Ett Äktenskap
Gênero: Drama
Duração: 299 min.
Ano: 1974 (Suécia)
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Fotografia: Sven Nykvist

Elenco: Liv Ullmann, Erland Josephson, Bibi Andersson, Jan Malmsjö.

Homenagem


Um bondinho que sobe
Um bondinho que desce
E o turista continua comendo o açucar do pão!


Onde quer que esteja, que esteja bem.

domingo, 24 de maio de 2009

Novo título!

Pois é, eis que este blog ressurge das cinzas com um novo título e a esperança (pela milésima vez) de se tornar um diário de bordo, um canto bacana de mim para mim, afinal de contas, sou voz reflexiva.
Muitas coisas já aconteceram em 2009. Muitas mudanças e novos caminhos começam a aparecer e já reformulam toda minha vida. Nunca tive o desejo de permanecer como estátua do meu próprio eu; andar em novas direções dá medo e exige muita confiança em si mesmo. Estou confiante (ligeiramente vacilante, eu sei, fazer o quê, não é mesmo?). Meus caminhos só eu posso fazer; minhas escolhas são minhas e de mais ninguém.
Tenho muitas ideias a apresentar.  Causos a serem narrados. Poesias a serem partilhadas. Queria começar fazendo uma homenagem a uma grande amiga, uma amiga deliciosamente inteligente e bela. Para você, amiga de sonhos e alegrias; de decepções e lutas...

DESPEDIDA

Vais ficando longe de mim
como o sono, nas alvoradas;
mas há estrelas sobressaltadas
resplandecendo além do fim.

Bebo essas luzes com tristeza,
porque sinto bem que elas são
o último vinho e o último pão
de uma definitiva mesa.

E olho para a fuga do mar,
e para a ascensão das montanhas,
e vejo como te acompanhas,
- para me desacompanhar.

As luzes do amanhecimento
acharão toda a terra igual.
- Tudo foi sobrenatural,
sem peso e contentamento,

sem noção do mal nem do bem,
- jogo de pura geometria,
que eu pensei que se jogaria,
mas não se joga com ninguém.

Cecília Meireles