sábado, 19 de março de 2011

Boa reflexão do articulista Fernando de Barros e Silva sobre a polêmica do blog milionário!!



São Paulo, sábado, 19 de março de 2011


Blog e macarthismo

SÃO PAULO - Criou-se um escarcéu em torno do blog de poesia de Maria Bethânia. Pessoas reagem com fúria indignada ao fato de que a cantora foi autorizada a captar R$ 1,35 milhão pela Lei Rouanet -segundo a qual as empresas abatem do imposto que pagam a parcela do seu "patrocínio" à cultura.
Parece, pelo menos à primeira vista, sem conhecimento detalhado do projeto, um valor bem elevado para um blog. Mesmo considerando que os personagens envolvidos sejam Bethânia e o diretor Andrucha Waddington. Até aí eu vou.
Não dá, porém, para embarcar na escandalização barata do episódio, ainda acompanhada pelo prazer grupal de promover o linchamento da artista. Ninguém desviou dinheiro público, não há, rigorosamente, nenhum crime, nenhuma ilegalidade no pleito de Bethânia.
Favorecimento? A lei existe e uma das maiores intérpretes do país busca se beneficiar dela. Não estamos falando de uma espertalhona, de uma charlatã ou de uma mercadista vulgar, mas de alguém, pelo contrário, cuja figura sempre esteve associada a uma atitude de recato e nobreza de espírito.
Devemos discutir os critérios e problemas da Lei Rouanet? Sim, mas não dessa forma, sensacionalista e hipócrita. A própria ministra, Ana de Hollanda, disse numa entrevista recente: "As pessoas vivem muito de produzir eventos pela Lei Rouanet. A lei foi criando certos vícios, não só no mundo artístico, mas também no das empresas".
A reação ao blog de Bethânia, nos termos em que se deu, é, no fundo, só mais um capítulo de um certo macarthismo chulé que vem ganhando expressão no país. A caça às bruxas é capitaneada por uma direita cultural hoje bem estruturada na mídia, quase sempre maledicente e escandalosa.
As baixezas contra Chico Buarque em função do Jabuti são o caso recente mais emblemático do modo de agir dessa tropa do ressentimento fantasiada de exército da salvação da moral e dos bons costumes.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Costa Gavras e a complexidade humana.


Infelizmente não conheço toda obra do cineasta grego Κώστας Γαβράς. Missing (1982) foi minha primeira experiência e confesso que à época o que mais me chamou a atenção foram as interpretações viscerais de Jack Lemmon e Sissy Spacek. Estava começando a fazer teatro e pensei como seria incrível alcançar aquele nível de interpretação. De lá para cá assisti a mais alguns (aliás, preciso rever todos eles): Atraiçoados (1988), Music Box (1989), O quarto poder (1997) e, mais recentemente, Amém (2002) e O corte (2005). Ou seja, ainda não vi o mais famoso Z (1968) e aquela é considerada sua obra-prima: Seção Especial de Justiça (1975). Bom, estejam certos, farei sessões extras para botar tal filmografia em dia, afinal de contas, acabei de comprovar o impacto que Music Box causa em seu espectador.

Imaginemos uma vida tranqüila: filha, pai, irmão, neto... Uma carreira bem sucedida e a paz do chamado “sonho americano”. É assim que a família da advogada criminalista Ann Talbot inicia a narrativa de Gavras. Tudo muito correto até o pai de Ann receber uma intimação do governo acusando-o de ser um ex-criminoso de guerra, um ex-torturador sádico que tirou a vida de muitos em uma Hungria recém saída da 2ª Guerra Mundial. Daí por diante o espectador vai começar a juntar as próprias provas – palavras, frases, gestos... Tudo servirá para que aos poucos entendamos o que realmente está por trás de tais acusações.

O filme (ao que parece) acabou de ser relançado em DVD. Infelizmente sem alarde, sem nenhum tipo de apelo comercial. Há tempos vinha procurando uma cópia, pois sempre quis tê-lo em minha coleção. Konstantinos Gavras não é um cineasta simplificador, pelo contrário, suas tramas sempre pedem para que saíamos do óbvio, que mergulhemos para além da superfície. Com essa pequena jóia não é diferente. O que aparentemente é uma simples confusão (ou uma armação comunista como muitas vezes é dito no tribunal) vai aos poucos se tornando um tratado sobre a eterna complexidade humana. O que impressiona é sabermos que o mesmo ser humano que estupra e mata com requintes de perversidade, é o mesmo ser humano que constitui uma família, provendo-a e amando-a. Somos capazes de forjar uma mentira com tanta veracidade, que a própria verdade se torna irrelevante e sem sentido. Será?

Ann Talbot é interpretada com maestria e sutileza por Jessica Lange e seu pai – Michael Laszlo - pelo brilhante Armin Mueller-Stahl. A relação pai e filha é desenhada pelos dois de maneira tão humanamente dolorosa que o diálogo final se torna paradoxalmente desumano. O filme prova de forma insigne que não podemos dizer que conhecemos alguém realmente, nem mesmo as pessoas com quem convivemos a vida inteira.

Recomendo o filme pela inteligência, pela coragem e porque o mal nem sempre está apenas nos lares desestruturados ou nas famílias de baixa renda. O mal e o bem estão em todos os lugares, em todas as pessoas, quer acreditemos nisso ou não.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Retomando...


Dias, meses depois... aqui estou eu. A distância não é porque desejo ficar longe das palavras. A distância é porque às vezes fujo das palavras. Não sei bem se fujo ou se não sei como exatamente lidar com elas. Relendo a última postagem vejo o quanto estava feliz nela, o quanto a vida parecia ganhar uma espécie de novo significado (sabe-se lá o que isso quer dizer). O fato é que continuo andando para frente, 2010 realmente começou mais ou menos na tal última postagem, isto é, os resíduos de 2009 foram (finalmente) deixados em 2009!
Tenho trabalhado como um louco e minha já conhecida desorganização ajuda a vida ficar mais complicada. Demorei um pouco a pegar o novo ritmo de Rio das Ostras (agora são 18 tempos semanais), mas depois de alguns ajustes, de conversar com uma equipe que realmente admira meu trabalho e aposta em mim, tudo entrou nos eixos. A novidade é minha estréia no oitavo ano. Que diferença. Acho curioso como os meninos encaram o meu jeito independente de ministrar as aulas. Ser chamado de “tio” nessa altura do campeonato é no mínimo surreal. Porém, cá estamos nós (eu e eles) aprendendo muito e cada vez mais quero estruturar nossa relação, pois a matéria dada nesse período repercute (e muito) no Ensino Médio e nos concursos.
Uma fantástica notícia é minha volta aos circuitos do Artplex. Como amo ir lá, me deliciar com o café, ficar batendo perna na livraria, comprar livros, bater papo com um eventual conhecido e, obviamente, me perder no enredo de algum filme. Avatar, Guerra ao Terror, Alice no País das Maravilhas, Homem de Ferro II, Robin Hood, Sonhos Roubados, Cartas para Julieta etc etc. Grande retorno, afinal de contas, 2009 foi um ano mais de DVDs.
Coração? Ele existe (ou seria resiste? rs) e vai bem obrigado. Aliás, cada vez melhor, cada vez mais intenso e mais apaixonado, até porque, “românticos são lindos e pirados; choram com baladas e amam sem vergonha e sem juízo...” Pois é, cá estou eu, trabalhando, criando, estudando e reinventando meu coração.
Acho que o real motivo que me trouxe de volta às postagens foi a situação delicada em que meu pai se encontra. Desde a semana passada ele vem inspirando cuidados especiais e na última terça foi internado lá no PS da Santa de Casa de Santos. Desde 2004 venho lutando com esse fantasma da perda paterna. Desde 2004 venho buscando estar sempre centrado em relação ao meu novo papel familiar: o de pai dos meus pais. Acho que apesar dos pesares, venho conseguindo lidar com as dificuldades (e olha que são inúmeras) e dar um pouco de dignidade à vida daquelas duas figuras raras e especiais. Revelações, surpresas aos 45 do segundo tempo... E este ser que vos escreve tentando se equilibrar nessa frágil linha chamada vida.
Bom, a retomada foi feita, agora vou corrigir os possíveis erros de digitação, escutar um pouco de música e tomar uma boa taça de vinho porque eu MEREÇO!!!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

smile


Como explicar uma atração que parece surgir do nada e caminhar para o tudo? Tudo bem, certas coisas não são para serem explicadas, mas é sempre muito curioso como os caminhos da gente às vezes parecem não seguir nenhuma cartilha. Pessoas se divertem, pessoas planejam, pessoas amam...
Há muito tempo não me sentia tão bem, tranqüilo. Minhas férias estão deliciosamente boas e o que é melhor: nem precisei sair do Rio. A cidade está parecendo assim só para mim, com um sol lindo que brilha, gotas da chuva que limpam e renovam. O azul do céu nunca foi tão azul, o verde dos meus olhos me leva a perceber situações até então não percebidas.
Cada música ouvida, cada palavra dita, cada gesto sentido me fazem redescobrir o meu próprio eu e minha força; força essa que sempre resistiu bem as tempestades.
Porém, o mais importante de todas as revelações surgidas calmamente; delicadamente... é saber que meu coração sabe enxergar a realidade sem fantasiá-la (quer dizer, uma pitadinha de fantasia se faz necessário). Meu coração aprendeu a caminhar sentindo desejo e sem perder o foco das minhas prioridades.
O fato é que não há mais espaço para menos, só há espaço para mais.
O fato é que os sonhos são bons porque eles fortalecem a realidade.
O fato é que a vida é bela porque eu aprendi a valorizar beleza da minha alma.
Mais...sonhos...vida... Smile though your heart is aching
Smile even though it´s breaking
When there are clouds in the sky
Smile and maybe tomorrow you´ll see the sun come shining through for you

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

a simple thing...

We kiss in a shadow We hide from the moon Our meetings are few And over too soon.
I have dreamed That your arms Are lovely... I have dreamed What a joy you'll be... I have dreamed Every word you whisper
We speak in a whisper When you're close Close to me.
Afraid to be heard... Alone in our secret Together we sigh For one smiling day To be free...
How you look
In the glow of evening
To kiss in the sunlight
I have dreamed And enjoyed the view
And say to the sky

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

VIVA 2009!!! PORÉM, VIVA MAIS AINDA 2010!!!!!!

Dia de Natal!!! Final do ano; tempo para o maior de todos os clichês do ano: o balanço geral!
2009? Bom, 2009 foi atípico, há alguns anos um ano não trazia tantas mudanças; ele me exigiu uma nova postura diante da minha própria vida e das minhas escolhas. Gostei muito! Confesso que teve um momento em que não via a hora dele ir embora e eu finalmente poder dizer: “Passou!” Mas agora, com ele quase indo embora de vez, vejo que não há necessidade nenhuma de “expulsá-lo” como algo ruim. Tá, exaustivo, sim, ruim? Nunca!
Bom, o ano iniciou de forma linda, afinal de contas, foi em janeiro que reencontrei Glauce Leandres. Caramba, tanto tempo sem nos vermos e de repente estávamos ali, sentados naquela mesa de boteco, rindo muito e percebendo que não há distância no mundo que nos afaste. A dupla iria se reunir em várias ocasiões durante o ano: dançando em lugares para lá de hilários, São Paulo, Madureira, Terê... Ufa, eu e Glau soubemos aproveitar bem!!!
Fevereiro trouxe o novo trabalho em Rio das Ostras e o fim de uma história de 10 anos. Trabalhar com novos alunos, novos profissionais era algo há tempos almejado por mim. No início foi complicado encarar aquelas turmas gigantescas, mentalidades bem distintas daquelas que já estava acostumado no Rio. Porém, o ano foi correndo e eu confirmando que adoro um bom desafio. Aos pouquinhos fui percebendo o que precisava fazer e para minha felicidade o segundo semestre trouxe um grupo mais coeso, com mais vontade de parceria.
O mês dois me confidenciou que era hora de caminhar sem ninguém ao lado. Pensei em fingir não ouvi-lo e durante algum tempo fui empurrando e me sujeitando a situações inapropriadas para alguém com minha força e inteligência. Só para lembrar: essa dupla já havia me sugerido antes que era hora de partir. Pois é, pode ter demorado um tempinho, mas... voltei a caminhar de maneira plena, isto é, saindo da farsa, da não verdade; seguindo o meu próprio caminho e redescobrindo o prazer de não viver fingindo aquilo que não se é.
Março já antecipava a confusão do mês seguinte. Redescobrindo a minha casa, fui tropeçando em alguns pontos que julgava eu compreensíveis.
Abril quase me enlouqueceu. A ajuda veio daquela que se confirmou como parte integrante da minha vida: Adriane! Pois é, a dona da casa de repouso onde meu pai tem um tratamento impecável, me estendeu a mão e me fez definitivamente perceber que apesar da mediocridade geral, ainda existe gente que tem vontade de praticar o bem, gente que é solidária justamente porque sabe ser gente.
Maio & Junho... tentaram me colocar para baixo, tentaram me fazer andar para trás... Porém, eu e Glau fomos a São Paulo e aproveitamos cada momento na metrópole louca e encantadora. Museu da Língua Portuguesa, Pinacoteca, pizza e vinho no Bexiga, avenida Paulista com todo seu poder... Andar para trás? Desculpa, não tenho tempo para isso.
Julho e a pequena pausa do trabalho escolar. Santos e a confirmação de que agi de maneira certa, tudo sob controle e a felicidade de reencontrar a grande amiga Cleo Amorim. De lá direto para Barbacena. Uma semana deliciosa com uma amiga importante, definitiva. Passeio por Tiradentes, São João Del Rey e a sensação de que a vida realmente é deliciosa.
Agosto veio com a gripe suína. Tudo parado e uma sensação de pânico instaurada no ar. Recomeçamos com atraso, contudo recomeçamos; aos poucos a vida foi voltando ao normal e pudemos, enfim, continuar os trabalhos.
Setembro... Ah, setembro! Aqui definitivamente posso dizer que passei a encarar minha própria vida sem interferências externas. Não que elas não tentaram dar o ar da graça, no entanto, quem disse que houve tempo para dar atenção a elas?
Outubro e a aproximação da reta final. Eu cada vez mais apaixonado pelo meu trabalho, a felicidade de me perceber dentro de uma equipe profissional simplesmente nota 1000!! Nunca me senti tão pleno e tão cheio de perspectivas na minha vida docente. Notícia maravilhosa do mês: Tobias voltou!!!!!!!!!!!!!!!!!! Meu fiel escudeiro voltou e trouxe de volta minha alegria. Parceria intensa e verdadeira, meu amigo de quatro patas restabeleceu a ordem necessária em minha vida.
Novembro vai ser resumido como o mês das novas possibilidades. Foi bom ter me dado algumas oportunidades. Caminhos novos surgiram e apenas me confirmaram o que verdadeiros amigos já haviam me dito: não há possibilidade de me sujeitar aquilo que não me valoriza ou não me faz crescer. Sou aquele que na matemática insiste em querer paradoxalmente dividir visando o somar e o multiplicar, se é para entrar na minha vida para me fazer subtrair (aliás, a palavra aqui serve como metáfora de muitas outras situações), por favor, não entre! Até porque se entrar, vou pedir para sair.
Dezembro e a óbvia constatação: ninguém morre de amor! Amor é alimento da alma, do coração, se ele começar a querer apenas tirar, sugar... não é amor! È dependência, carência, insegurança, medo... Amor? Não, tenha certeza, não é!
Novos caminhos começam a aparecer no horizonte, expectativas e desafios despertam a minha necessidade de seguir em frente e acreditar piamente em mim. O meu profissional está com todo o gás do mundo e começo agora a reunir forças para focar o tão aguardado Doutorado. Enquanto isso reforço a crença na minha capacidade e, naturalmente, na minha doce utopia de estabelecer uma parceria baseada em respeito e inspirada pelos deuses da construção mútua

domingo, 15 de novembro de 2009

Variações sobre um tema de Mozart (fragmentos), João Silvério Trevisan

“Acho que tá na hora.

A gente sabia que ia ser duro. Sabia não sabia?

Você sabe, essas coisas sempre têm fim. Quer dizer, o amor. Tudo um dia tem que acabar. Nem a vida é eterna, apesar de ser bom estar vivo.

Tá bom, tá bom. Com o tempo a gente vai se esquecer, é verdade. As cartas vão diminuindo, os telefonemas ficando mais curtos. Mas e daí? É assim mesmo. Você vai se arranjar sem mim. A vida continua.

Afinal, nós não somos os únicos. Todos os dias, no mundo inteiro, há milhares de histórias de amor se acabando. E outras milhares começando. Vida e morte, tudo junto. As coisas são assim mesmo.

Sou péssimo para consolar as pessoas.

Vai doer muito, eu sei. Aquelas noites em que a gente não consegue dormir, em que o corpo inteiro dói de solidão. E a gente, de noite. Geme que nem cão sem dono.

A solidão vai ficando tão imensa que chega uma hora e a gente não tem mais para onde ir. Ela toma todo o espaço, invade tudo. Dá saudade de ver aquela praça, tomar aquele sorvete, ouvir... Qualquer coisa dói de solidão. E a gente fica com a impressão de que o mundo vai encolhendo. Que o nosso espaço é esse quarto, porque isto aqui acaba sendo tudo o que sobrou. Então vem aquele sufoco, de tão apertado é o espaço que sobrou.

É bom você estar preparado. Estar preparado para quando chegar aquela noite desgraçada, fria, molhada e mais escura do que todas as outras. É quando a gente implora por um pequeno carinho.

Por um longo tempo pensou na solene e melancólica clarineta de Mozart, no amor deles, na saudade.

Ouviu ruídos que lhe pareciam longínquos.

Passos que se afastavam.

Uma porta se fechando.

Depois outra, mais longe.

Uma chave girando.

O portão batendo.

Algo vago como um carro.

Motor distanciando-se, sumindo.

Silêncio.

Pensou: só Deus sabe como sobrevivi. Pensou já sem lágrimas nos olhos, mas para sempre inconsolável, filho da desesperança e da dilacerante realidade que emergiu daquele momento – daquele momento em que um sonho tão bom e tão raro como o amor - se acaba."


Mozart, Concerto para clarineta 2º movimento

http://www.youtube.com/watch?v=BxgmorK61YQ